Artigos de Interesse
Bancos Associados
Capacitação
   Profissional

    Cursos Ativos
    In-Company
Como Associar-se
Diretoria

Estratégia Nacional de
   Educação Financeira

Eventos
Finalidade e Objetivos
Forma de Atuação
Links de Interesse
Programa de Inclusão de
   Pessoas com Deficiência
Reuniões e Comitês
Trabalhos especiais
News ABBI
Do Pretérito ao Futuro
Deixei a presidência do Banco Central há três anos e meio. Já era notório, naquele momento, que discordava da política cambial em curso. A natureza de minhas críticas, no entanto, nunca veio a público. Evitei falar de câmbio nas raras entrevistas que me permiti conceder. Não quis que meu ceticismo alimentasse nenhuma forma de desconfiança diante do plano que ajudei a criar.

A flutuação da taxa de câmbio adotada na última sexta-feira me leva a abandonar a atitude de silêncio adotada ao longo desses anos.

Infelizmente, ocorreu o previsível. No segundo semestre de 1994, o Banco Central optou por uma taxa de câmbio obviamente valorizada e juros elevados. Foi uma ação corajosa e adequada às circunstâncias. Era crucial nas fases iniciais do programa conseguir uma expressiva vitória no combate à inflação.

O erro foi a tragetória posterior. Já em 1995 propus evoluir para uma banda larga (sem minibandas), passo prévio para a adoção de um câmbio inteiramente flutuante.

Primeiro, porque a sustentação ao longo do tempo da taxa de câmbio inicial dependeria, em última análise, da evolução futura das contas públicas. Fui cético quanto à possibilidade de mudar o regime fiscal vigente no País no curto prazo. A estabilização, no Brasil, foi feita em condições dificílimas, premida entre o fardo da Constituição populista de 88 e uma base parlamentar instável. Parecia-me improvável que pudéssemos avançar na velocidade necessária para assegurar que o câmbio, ex-ante inconsistente, pudesse vir a tornar-se consistente ex-post.

Segundo, porque a disponibilidade externa de financiamento a déficits de conta corrente é sujeita a ciclos. O plano havia sido lançado num momento favorável, que não duraria para sempre. Parecia-me imprudente incorrer no risco de um choque externo além do tempo estritamente necessário.

Teria sido melhor?

Certamente teríamos tido um pouco mais de inflação do que tivemos. Não acreditava, no entanto, que o efeito negativo sobre a inflação pudesse ser expressivo. Muitas vezes ainda pensamos a relação entre inflação e câmbio à moda antiga. Numa economia desindexada com política monetária ativa, o efeito inflacionário da taxa nominal de câmbio tende a ser pequeno. Em contrapartida, teríamos ficado livres mais cedo do pesadelo de sustentar um câmbio apreciado através de juros altos. Emprego e crescimento teriam sido maiores, para não falar no ônus sobre as contas públicas que poderíamos ter evitado.

Certamente também teríamos de enfrentar mais cedo a sempre difícil travessia de um sistema de taxas de câmbio administradas para um sistema flutuante. Mas, penso eu, a teríamos feito por vontade própria escolhendo o momento, livres do suplício de tentar sustentar, contra toda evidência, uma taxa de câmbio longe de seu equilíbrio.

A matéria se presta a argumentos contrafactuais infindáveis. O fato é que a fragilidade externa foi crescente. As mudanças do regime fiscal foram lentas (como quase sempre o são). E o final foi idêntico a tantos outros. Sempre há um choque externo forte o suficiente para levar ao abandono da taxa de câmbio fixa quando ela está muito desalinhada com as demais variáveis macroeconômicas. Da mesma forma como sempre surge uma bactéria oportunista diante de um organismo debilitado.

E agora? Chegamos, verdade de forma tardia e em piores condições, ao mesmo regime cambial que teria gostado de ter visto implementado. É certamente um sistema de operação difícil, desabituados que estamos ao livre mercado. É um sistema de muita volatilidade - nos últimos seis meses, por exemplo, a cotação do iene diante do dólar oscilou entre 147 e 109. É um sistema que exige frieza por parte do Banco Central, intervindo apenas topicamente e evitando usar a taxa de juros para aplainar as oscilações dos mercados. É um sistema extremamente sensível aos humores e à política. Antes se perdiam ou se ganhavam reservas; agora sobe ou desce a taxa de câmbio.

Mas é um sistema que amplia, e muito, os horizontes do País. Depende apenas de nós mesmos desenvolver suas possibilidades, perseguindo com ousadia um novo regime fiscal (que é mais do que combater o déficit público tal como usualmente medido) e aprofundando as reformas. Se o fizermos, estaremos eliminando o único óbice restante à redução da taxa de juros até a sua equivalência às taxas internacionais. E também o único restante à unificação dos segmentos comercial e flutuante, eliminando de vez os controles de câmbio e tornando o real plenamente conversível.



Fonte: O Estado de S. Paulo, 21/01/1999

Por: Persio Arida



Voltar

Política de Privacidade | Mapa do Site