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Créditos em Atraso nos Bancos Preocupam Analistas
Ações do setor financeiro já recuperaram perdas do ano

passado e têm potencial de alta limitado pela esperada deterioração dos ativos

Os primeiros resultados trimestrais divulgados por alguns bancos ainda de forma preliminar justificam

a cautela dos analistas com as projeções para os balanços deste ano.

Embora o primeiro trimestre não seja o período de maior ganho do sistema financeiro por causa da queda sazonal

do nível de atividades, ele sempre serve para sinalizar uma expectativa para o ano. Neste ano especificamente, confirmou o acerto da revisão dos resultados esperados: as projeções para

quatro dos maiores bancos de varejo - Bradesco, Itaú, Unibanco e BCN - prevêem o aumento dos lucros mas em percentual inferior ao esperado antes da crise asiática e da forte alta dos juros

do final de 1997.

O maior banco privado brasileiro, o Bradesco, registrou um lucro líquido de R$ 204,5 milhões no primeiro trimestre. O número é expressivo para um primeiro

trimestre do ano, mas projeta para o exercício um lucro inferior ao de R$ 824,5 milhões de 1997 e uma rentabilidade anualizada em linha com a histórica de 14,43%.

Já o Banco do

Brasil, que teve um lucro líquido de R$ 158,5 milhões e uma rentabilidade anualizada de 12%, confirmou a expectativa dos analistas de redução dos ativos em função ao aumento do risco ao

informar que os ativos totais diminuíram de R$108,9 bilhões em dezembro para R$ 105,2 bilhões em março.

O BCN, com lucro líquido de R$ 51,8 milhões, é um caso à parte porque teve

ganhos extraordinários com a aquisição pelo Bradesco.

A expectativa de deterioração das carteiras de crédito dos bancos neste ano, em função do aumento dos juros, da queda do nível

de atividades e do aumento da inadimplência, é o principal motivo de preocupação dos analistas com os resultados deste ano.

Os analistas José García-Cantera e Augusto Lange da

Salomon Smith Barney estimam que os empréstimos em atraso podem crescer 50% neste ano, já descontados os créditos baixados contra resultados. Pior ainda, os analistas acreditam que esses

problemas ainda não serão retratados nos balanços dos primeiro trimestre e vão aparecer nos próximos meses.

"O efeito da alta dos juros não é imediato", explicou Lange. "Há um

período de tempo até o tomador de crédito sentir a diferença do custo mais elevado do dinheiro e eventualmente ficar inadimplente. O impacto do juro na desaceleração do nível de atividades

também leva algum tempo. Os bancos, do seu lado, somente começam a registrar o atraso após 60 dias de inadimplência".

Além disso, os analistas da Salomon Smith Barney estão

observando que os juros não estão caindo na ponta do crédito na mesma velocidade em que está recuando a Taxa Básica do Banco Central (TBC). "Quanto mais elevado o juro maior o risco dos

bancos. E esse risco continua elevado", disse Lange.

O analista de bancos do Morgan Stanley Dean Witter, Raphael Bello, não está tão pessimista com os resultados dos bancos por

causa do nível elevado de provisões das maiores instituições para créditos problemáticos. "A taxa de inadimplência nos bancos brasileiros é uma das baixas da América Latina. Além disso, não

estamos prevendo nenhum problema como aconteceu em 1995. Agora, os grandes bancos estão com provisões bastante elevadas, acima de 100% dos créditos em atraso e em liquidação", afirmou.



De fato, segundo levantamento dos dois bancos, o Bradesco, com provisões equivalentes a 154,4% dos créditos em atraso no final do ano passado, era a instituição entre as três maiores

com menor nível de reservas. O Itaú dispunha de 246,3% e o Unibanco chegava ao máximo de 370%.

Lange concorda que esses bancos possuem um "grande colchão de provisões, formado nas

épocas gordas". Mas não acredita que todos eles usarão essas reservas para cobrir os novos problemas. "Isso vai afetar cada banco individualmente. Há algumas instituições que estão com mais

margem de manobra do que outras".

As provisões em níveis tão conservadores quanto os exibidos pelos maiores bancos, explicou, são importantes para tirar a volatilidade de seus

negócios. Ou seja, constituídas em níveis acima do mínimo necessário ditado por uma política conservadora, podem ser utilizadas para equilibrar perdas momentâneas de receita em períodos

mais difíceis.

Além do aumento dos créditos problemáticos nos bancos, os analistas da Salomon Smith Barney observaram que os resultados serão prejudicados pela contenção voluntária

das operações de crédito. Ou seja, diante do aumento do risco, os bancos restringiram as carteiras.

Segundo estudo feito pela Salomon, o BCN, Itaú e Unibanco limitaram as operações

de crédito às renovações logo após o aumento dos juros. O Bradesco continuou atuando normalmente por mais algumas semanas para logo seguiu os demais também com receio de uma deterioração da

qualidade dos ativos.

Por outro lado, o aumento dos juros ampliaram o "spread" bancário. Tiraram melhor proveito dessa situação Bradesco e Itaú, que possuem bases maiores de

clientes que formam o "funding" mais barato possível, os depósitos à vista.

Já o Unibanco, que depende mais da captação de recursos remunerados e sempre procurou orientar os

clientes para aplicações como fundos mútuos, beneficia-se menos dessa situação. Por outro lado, vai apropriar no primeiro semestre deste ano R$ 122 milhões em ganho extraordinário

proveniente da associação com a AIG na área de seguros. Na operação, o ganho total do Unibanco foi de R$ 265 milhões e a diferença já foi incluída no balanço de 1997.

Outro motivo

do otimismo do Morgan Stanley Dean Witter com os bancos brasileiros são as variadas fontes de receitas das instituições com as atividades de administração de recursos de terceiros, seguros

e cartão de crédito. Mas o analista da Caspian Securities, Antônio Klapka, não está tão confiante disso uma vez que observou uma redução em termos reais na receita da atividade de seguros

pela primeira vez em fevereiro.

Potencial

Analisando os bancos como alternativa de investimentos, porém, os analistas concordam que vários deles já recuperaram as perdas

registradas após a crise asiática e, apesar de prometerem lucros acima dos registrados em 1997, têm um potencial de valorização pequeno ou nulo.

Por isso, a Salomon Smith Barney

está recomendando a compra apenas do BCN. Tanto o Bradesco quanto o Itaú e o Unibanco foram considerados como "outperform", ou seja, já alavancaram bastante e dificilmente repetirão essa

performance.

Já o Morgan Stanley Dean Witter recomenda a compra do Bradesco e do Unibanco, que "estariam sendo subavaliadas pelo mercado", segundo Bello, e somente classifica o Itaú

como "outperform".



Fonte: Gazeta mercantil, 22/04/1998

Por: Maria Christina Carvalho de São Paulo



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