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Por que a crise é boa para o Brasil?
No final de outubro e começo de novembro o mercado brasileiro de ações registrou quedas diárias de até 10% ou mais. A moeda nacional ficou sob uma pressão séria quando um total de US$ 9 bilhões de "hot money" sumiu e o governo foi forçado a dobrar as taxas de juro. Alguns dias mais tarde, o presidente Fernando Henrique Cardoso enviou ao Congresso um austero pacote fiscal que trouxe à tona o receio da recessão.

Economistas não acostumados com o Brasil podem ser desculpados por pensar que a nona economia mundial está em completa desordem. Entretanto, enquanto a crise financeira mundial se acalma , existem indícios crescentes de que o Brasil surgirá como um candidato ainda mais forte para os investimentos diretos estrangeiros. Considerando que no último ano o País atraiu US$ 9,6 bilhões de investimentos estrangeiros diretos, a idéia de que irá tornar-se o mais atraente mercado emergente depois da China poderá ser considerada uma predição ambiciosa. Mas consideremos os fatos.

Talvez o mais importante para investidores estrangeiros tenha sido a determinação e a competência mostradas pelo governo e pela equipe econômica . Essa capacidade foi provada e reforçada muito antes da mais recente crise internacional. A crise asiática atingiu o Brasil indiretamente, quando os investidores tiraram dinheiro de aplicações do País para cobrir perdas em outros lugares. Não houve e não há nada fundamentalmente errado com a economia brasileira, mas a lógica parece não poder resistir à "mentalidade de boiada" , que vê todos os mercados emergentes da mesma maneira. Quando o pânico nos atingiu, entretanto, o Ministro da Fazenda, Pedro Malan, o Ministro do Planejamento, Antônio Kandir, e o presidente do Banco Central, Gustavo Franco deflagraram as medidas corretas no tempo certo e seguraram o valor do dólar , mantendo a taxa de câmbio solidamente estável.

Desde que hiperinflação foi abolida, em 1994, o governo tem como meta a estabilidade da moeda nacional, mesmo que isso signifique redução nos índices de crescimento . Brasília tem mantido altas reservas estrangeiras, para proteger a taxa de câmbio, o que segura o programa de estabilização. Isso pode ser uma segurança política custosa, mas nas últimas semanas tem surtido efeito.

O fato é que o Brasil não tem muitos dos problemas estruturais que podem ser vistos em várias das economias emergentes da Ásia.

Primeiro, vamos levar em conta as reservas estrangeiras do País . Não somente altas, elas também são de boa e crescente qualidade. A taxa de câmbio está desalinhada, sobrevalorizada com relação ao dólar, mas o governo vem corrigindo isso gradualmente, enquanto mantém a taxa estável para tranqüilizar investidores.

Um outro aspecto importante é a agilização das reformas estruturais .O Brasil necessita de uma visão completa do setor estatal para reduzir os custos e melhorar a eficiência. Até a crise, o Congresso estava somente empurrando com a barriga as sérias propostas do Executivo. Quando o alarme foi acionado, o processo se acelerou e, numa histórica decisão, os parlamentares derrubaram a estabilidade para funcionários públicos. Os estados e os municípios, sufocados com uma folha de pagamento inchada algumas chegando a 100% de suas arrecadações, poderão agora tomar medidas. Isso será da maior importância para reduzir o déficit público nos próximos anos.

A importância dessa e de outras reformas pendentes jamais será superenfatizada. Três anos de estabilidade econômica e de mercado razoavelmente aberto vêm expondo doenças estruturais que estavam escondidas pela inflação alta. Além do setor público ainda inchado, a indústria privada do Brasil tem sido forçada a entrar em competição em nível mundial. Isso significou uma grande importação de bens de capital, o que, por sua vez, contribuiu para um crescente déficit na balança comercial.

O presidente Fernando Henrique ganhou tempo privatizando grandes estatais nos setores de aço, petroquímico, ferroviário, portuário, de telecomunicações e de energia. O processo está promovendo um ganho significativo em toda a eficiência econômica, mas o fluxo de arrecadação nacional e internacional para os cofres públicos não irá durar para sempre. Quando isso começar a acontecer, por volta do final desta década, o Brasil precisará estar pronto na tarefa de enxugamento com um setor estatal eficiente e uma economia privada competitiva. Daí a importância do Congresso em solucionar os problemas agora , durante os desdobramentos da crise asiática.

Quem conhece o Brasil pode levantar uma série de dúvidas . Sim, cada reforma tem de ser negociada com o Congresso e o governo não ganhará todas as batalhas . Sim, a primeira metade de 1998 está se delineando como muito difícil, e aqueles de nós que somos consumidores poderemos enfrentar um período difícil. Mas voltemos àqueles dois pontos básicos. Primeiro, temos visto que o governo está seriamente comprometido com a estabilidade . E, segundo, sabemos que as bases econômicas são fortes.

Então, aonde isso tudo leva os investidores estrangeiros? Bem, um dos resultados inevitáveis da crise asiática será o estreitamento de opções. Alguns dos tigres asiáticos estão fora de cogitação por algum tempo, e empresas que esperam expandir suas presenças globais vão naturalmente se voltar para onde?

Para os mercados de desenvolvimento vagarosos da Europa ou para os mercados saturados dos Estados Unidos?

Os únicos concorrentes não-latinos sérios são a China, a Índia e a Rússia. Aqui, o Brasil ganha com atrações adicionais - renda per capta mais alta, uma tradição crescente de mercado livre, uma classe empresarial altamente qualificada, um sistema financeiro sofisticado, uma economia aberta e diversificada e uma cultura de negócios ocidental que é imediatamente entendida pelo investidor novo.

Perto de casa, o México e a Argentina passaram aparentemente muito bem pela crise e também podem esperar interesses renovados dos investidores estrangeiros. Entretanto, eles vêem seu poder de atração reduzido em face do imenso mercado e das perspectivas de crescimento do Brasil.


Fonte: Gazeta Mercantil, 08/12/1997

Por: Daniel Miller



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