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A Advertência de George Soros
A crise das bolsas, que abalou a economia em escala planetária durante uma semana, foi pálida amostra do que pode acontecer se os governos não se unirem para criar mecanismos de proteção contra o que se convencionou chamar de "ataques especulativos" - que nada mais são do que o efeito natural da livre movimentação dos fabulosos capitais financeiros internacionais à procura da melhor remuneração possível em todos os mercados do mundo. Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, descreveu essa movimentação no discurso que pronunciou na semana passada perante a Comissão de Economia do Congresso norte-americano, ao falar sobre os investimentos de capitais estrangeiros especulativos que contribuiram para o explosivo desenvolvimento econômico dos "tigres asiáticos" antes de fugirem daquela área quando se manifestou a atual crise do Sudeste Asiático: "Uma força importante que ajudou a mover essa expansão foi o boom do mercado acionário mundial nos anos 90. À medida que o boom avançava, os investidores de muitos países industrializados se viram fortemente concentrados nos securities recentemente mais valorizados das empresas do mundo desenvolvido, cujos índices de retorno, em muitos casos, haviam caído para níveis vistos como pouco competitivos em relação ao potencial de lucro das economias emergentes, especialmente as asiáticas. A diversificação resultante induziu a um aumento acentuado nos fluxos de capitais para essas economias... Olhando retrospectivamente, fica claro que mais dinheiro de investimentos entrou nessas economias do que poderia ser empregado rentavelmente, com riscos baixos".

Foram os erros cometidos pelos governos daquela área na utilização desse excesso de capitais especulativos que provocaram a crise que levou esses capitais a fugirem da área.

O mesmo fenômeno ocorrera antes no México, provocando a crise de 1995 naquele país. Hoje, as autoridades monetárias brasileiras esforçam-se para evitar que o fenômeno tenha aqui as mesmas conseqüências dramáticas que teve no México e na Ásia.

Até a crise das bolsas originada em Hong Kong os efeitos perversos da extrema volatilidade dos capitais especulativos não chegaram a ameaçar a ecomomia globalizada como um todo. A crise de Hong Kong, porém, por pouco não resultou em algo parecido com a crise que se iniciou com o crash da bolsa de Nova York em 1929, que mergulhou o mundo inteiro numa recessão profunda e prolongada.

O que evitou que isso acontecesse foi a disposição de empresas como a IBM, que lançaram mão de recursos bilionários para comprar suas próprias ações, evitando, assim, que o pânico tomasse conta da Bolsa de Nova York.

Na era da Globalização, os fundamentos da economia continuam inalterados, mas as novas tecnologias de informação produziram mudanças importantes na economia mundial, que reduziram a capacidade dos governos de responder às crises. A mão invisível do mercado sempre é capaz de promover o retorno à estabilidade. Mas hoje a interdependência dos mercados e o entrelaçamento das operações financeiras são de tal forma densos, e as comunicações, de tal forma rápidas que, se a solução das crises for deixada por conta exclusiva das forças de mercado, haverá sempre o risco dessa "solução" passar por uma recessão que, nos países emergentes, poderá produzir convulsões sociais capazes de abalar as instituições democráticas.

Surpreendentemente, devemos ao poderoso especulador internacinal, George Soros, a mais ominosa advertência sobre os perigos inerentes à atual situação dos mercados financeiros: "A não ser que façamos uma revisão em nossa compreensão dos mercados", disse ele, "eles vão entrar em colapso porque estamos criando mercados globais, mercados financeiros globais, sem entender sua verdadeira natureza". Ele defende a necessidade de uma regulamentação internacional dos mercados, para evitar um colapso que "virá através de eventos políticos ou eventualmente militares, e não meramente através de acontecimentos meramente de mercado".

O que justifica a advertência de Soros é a superabundância de capitais especulativos, que nenhum governo controla.

De fato, a chamada economia real, isto é, o conjunto de bens e serviços, tem crescido em torno dos 3% anuais, resultando num produto mundial de cerca de US$ 30 trilhões. O comércio mundial oscila na casa dos US$ 11 trilhões anuais, nos dois sentidos. Os fluxos de investimentos diretos externos - poupança externa destinada a aumentar a capacidade da economia real - são da ordem de US$ 350 bilhões anuais.

Mas o movimento de derivativos financeiros é da ordem de US$ 40 trilhões por dia! Em resumo, todos os dias, o mercado especulativo de papéis e de opções movimenta mais que o volume agregado da produção mundial. É por isso que as economias nacionais dos países emergentes estão hoje praticamente à mercê dos interesses dos grandes especuladores internacionais que movimentam seus capitais com a mesma irresponsabilidade social com que um jogador inveterado se dispõe a quebrar a banca, num cassino. O jogo com as poupanças nacionais, no entanto, deve ter restrições severas, para que as apostas dos especuladores não se transformem em tragédias nacionais. Ou internacionais.


Fonte: O Estado de São Paulo, 03/11/1997

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