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O Pecado Mora em Brasília
O ano de 2002 apresenta algumas características semelhantes ao ano de 2001, com alguns riscos e oportunidades, mas com o mal maior localizado em Brasília.
A recessão norte-americana do ano passado, acrescida do ataque terrorista de 11 de setembro, afetou o mundo todo, desde os países desenvolvidos até - e principalmente - aqueles cuja balança comercial depende de exportações para os Estados Unidos. Além dessa grande preocupação, tínhamos de enfrentar a crescente crise argentina, que poderia afetar drasticamente nossos planos de desenvolvimento. O temido "contágio" poderia alijar-nos temporariamente do mercado, com implicações na taxa de câmbio, nos investimentos externos e no financiamento da nossa dívida externa. Entretanto, graças à boa estrutura da nossa economia, o risco argentino distanciou-se do Brasil e fomos capazes de continuar crescendo, independentemente do impacto negativo vindo do Hemisfério Norte. O que não esperávamos é que uma crise fabricada internamente - a crise energética - viesse a jogar uma ducha de água fria nas nossas pretensões de crescimento econômico, ao redor de 3%. Diante de todas essas circunstâncias, terminamos o ano relativamente bem - nosso PIB evoluiu 1,51% no ano 2001, mas, pelo menos, outro 1,5% a menos do que era lícito acreditar, não fosse a falta de planejamento governamental oriunda de Brasília.

Ao contrário do ano passado, a economia norte-americana começou 2002 com todo o vigor, criando um clima de otimismo jamais imaginado. De acordo com a revista Business Week desta data, "claramente, o temor acerca do crescimento está-se vaporizando. Os dados são tão fortes que alguns economistas agora acreditam que o produto doméstico bruto cresceu tão rápido como 6% no primeiro trimestre". Embora alguns questionem essa capacidade gigantesca de recuperação, o certo é que há consenso de que este ano teremos boas notícias vindas do Hemisfério Norte. A Argentina continua sua incrível rota de dificuldades, mas, felizmente para nós, brasileiros, as condições das duas economias - argentina e brasileira - são tão diferentes hoje que ninguém mais fala ou acredita em "contágio".

Nem tudo são rosas, entretanto. A crise do Oriente Médio vem tomando dimensões críticas e ninguém sabe exatamente qual será o seu fim. O risco de alastrar-se para outros países preocupa, o que fez com que o preço do barril do petróleo - obviamente ajudado por movimentos claros de especulação - aumentasse cerca de 40% de janeiro para cá. E, embora a percepção seja de que a crise, por maior que seja, não afetará o fornecimento do petróleo, a verdade é que o impacto negativo já chegou até nós: novo aumento do preço da gasolina em duas semanas, o que pode gerar impacto inflacionário e impedir a trajetória de queda das taxas de juros locais verificada até aqui. Mais um risco não esperado, mas que não deverá afetar significativamente as projeções de crescimento econômico para este ano de 2002, situando-se ao redor de 2,5%.

No nosso ver, entretanto, o mal maior, o pecado, mais uma vez mora em Brasília. Quando o sempre ponderado e equilibrado presidente do PFL, senador licenciado Jorge Bornhausen, declara que "o jogo sucessório começou truculento e vai terminar truculento" e "quando o jogo está sem juiz, vale tudo", podemos imaginar o que os próximos meses nos poderão oferecer. Lutas, disputas, acusações, conchavos ameaçam fazer parte do nosso dia-a-dia, com prejuízos evidentes para nossa economia. A tendência é o Congresso movimentar-se mais lentamente e episódios como o da CPMF criarem problemas de difícil solução para o Orçamento da União. Que a CPMF é um mau imposto, ninguém duvida. Mas que retirá-la, mesmo que em parte, assim abruptamente, causando um rombo que pode chegar a R$ 6 bilhões, é algo que não poderia acontecer. Pois a conta, seja ela de que tamanho for, será paga no fim do dia pelo cidadão brasileiro.

Como a esperança é a última que morre, torcemos para que nossos políticos não se coloquem em situação semelhante à de seus colegas argentinos. Em pesquisa realizada pela consultoria Equis entre o povo argentino, os políticos foram apontados como o pior problema para o país por 38,5% dos participantes, seguido do desemprego, que já ultrapassa a preocupante marca de 20% da população. A percepção aqui, no Brasil, não é tão negativa assim, mas, se as escaramuças políticas vierem a atingir duramente o povo brasileiro, os resultados, no futuro, não serão muito diferentes.

Resta, pois, que a classe política tome consciência dessa realidade e que os interesses do País sejam colocados à frente dos interesses políticos. O que o povo quer é ter a opção de exercer seu direito de voto buscando escolher o melhor candidato - aquele que trouxer propostas de governo claras e factíveis -, e não o menos pior que a "truculência" atual parece indicar.


Alcides Amaral, jornalista, ex-presidente do Citibank S.A., é autor do livro Os Limões da Minha Limonada E-mail: alcides.amaral@uol.com.br


Fonte: O Estado de São Paulo, 08/04/2002

Por: Alcides Amaral



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